Às vezes estou em casa, mas são poucas. Tudo isso porque sou um prof. de filosofia que só representa um nº para os nossos esclarecidos governantes. Como eles, também sou a imagem do sucesso. Os alunos sucedem-se ano, após ano cada vez mais longe. Educo para absolver os meus pecados, pois "ainda sou do tempo das enfermeiras que não se podiam casar".

Thursday, October 02, 2008

A Avaliação de des-empenho.

Quanto mais penso na avaliação de desempenho mais me sinto motivado. Cada vez me sobra mais tempo para preparar as minhas aulas. De cada vez que visito a família nos 450 Km que nos separaram estes quatro anos, ignoro o des-empenho da escola e deixo de tomar o Xanax para que possa conviver um pouco com a família sem adormecer. Claro que já nem sequer penso nas centenas de professores de filosofia que estão a dar aulas bem perto da minha casa, enquanto eu (que não sei sequer onde moro, ou donde sou) continuo desterradíssimo. Se eu fosse a avaliar o des-empenho desta medida, os efeitos secundários que ela teve na minha vida e a minha avaliação contasse para a progressão dos governantes... vê-los-ia na lua, quase à mesma distância que eu de casa. Nunca mais esqueço a justificação da minha colocação por três anos... estabilidade do corpo docente.
Inscrevi-me num CNO para relatar a minha história de vida. Como gasto muito dinheiro em viagens achei que seria mais barato do que ir ao psiquiatra. Tenho a certeza que me vão validar competência e passarei muito bem nesta avaliação de desempenho.
RANKINGS E XANAX
Texto de Daniel Oliveira, no Expresso.

"Esta semana evite a companhia de professores. Falar com qualquer um deles pode deixá-lo em mau estado. Vivem, nos dias que correm, em depressão colectiva. A sucessão de reformas, contra-reformas e contra-contra-reformas, a destruição do que se foi fazendo de bom - do ensino especial ao ensino artístico -, a incompetência desta equipa ministerial e o linchamento público de uma classe inteira tem os resultados à vista: as aulas recomeçam com professores tão motivados como um vegetariano perante um bife na pedra.Sabem que os espera apenas uma novidade: a avaliação do seu desempenho. E é, ao que parece, tudo o que interessa a toda a gente: a avaliação dos professores, a avaliação dos alunos, a avaliação das escolas, a avaliação do sistema educativo português.Tenho uma coisa um pouco fora do comum para dizer sobre o assunto: a escola serve para ensinar e aprender. Se isto falha, os exames, as avaliações e os 'rankings' são irrelevantes. Talvez não fosse má ideia, enquanto se avaliam os professores, dar-lhes tempo para eles fazerem aquilo para que lhes pagamos em vez de os soterrar em burocracia. Enquanto se exigem mais e mais exames, garantir que os miúdos aprendem com algum gosto qualquer coisa entre cada um deles.Enquanto se fazem 'rankings', conseguir que a escola seja um lugar de onde não se quer fugir. E enquanto se culpam os professores pelo atraso cultural do país, perder um segundo a ouvir o que eles têm para dizer. Agora que já os deixámos agarrados ao Xanax, acham que é possível gastar algumas energias a dar-lhes razões para gostarem do que fazem? Se não for por melhor razão, só para desanuviar o ambiente nos edifícios onde os nossos filhos passam uma boa parte do dia".

3 comments:

Miguel said...

É o último ano de desterro...

Enquanto isso, dá-lhe brita grande amigo!

Infame da Vileza said...

Toda a gente esquece que nós somos os educadores dos filhos e para desempenharmos a nossa função com algum equilíbrio precisamos de tempo, carinho, justiça,...
Um abraço!

Marco Rebelo said...

enfim..é o país q temos..:)